Bolonha: uma cidade para conhecer com os olhos, boca e ouvidos

Por Daniel Courtouke

Jornalista formado e jogador de futebol frustrado, Daniel Courtouke dá seus pitacos e dicas no Viagem 0800 sobre as viagens que fez. Como bom pão duro que é, procura sempre mostrar os atalhos mais econômicos das viagens que faz.

Ao contar que iria para Bolonha para uma colega italiana do trabalho e pedir dicas do que fazer na cidade, confesso que cheguei a estranhar um pouco quando ela me enviou uns cinco links só falando de comida e nenhuma sugestão de ponto turístico. Como o destino era a Itália, afinal, deixei o ceticismo de lado e me afundei no emaranhado de links que a internet proporciona, intercalando minha fluência em comida italiana com o tradutor do google.

Minutos depois, meu conhecimento sobre os pontos turísticos da cidade continuava zerado, mas já tinha mais planos para comer em Bolonha do que dias disponíveis pra ingerir tudo o que havia de bom por lá.

Ali, surgiu o molho bolonhesa – que originalmente é servido com tagliatelle e não espaguete – e o tortellini, além da lasanha bolonhesa e de sua variação com massa verde.

Com tantas dicas gastronômicas e um bebê a tira colo, a cidade pareceu uma boa escolha pra um roteiro de final de semana, na nossa primeira viagem de avião com a Nina!

O que fazer em Bolonha – e onde comer, claro!

interior da sala borsa em bolonha
Interior da Sala Borsa, a antiga bolsa de valores que se transformou em biblioteca.

Entre uma parada aqui e ali para comer e experimentar quase tudo o que a culinária local tem a oferecer enquanto turistávamos pelo centro antigo, descobrimos que Bolonha tem muita coisa interessante até mesmo para os que não são tão fãs da gastronomia italiana – se é que isso é possível.

A primeira coisa a se notar logo de cara é que a cidade parece ter uma cor. Muitas igrejas, prédios e demais construções tem uma cor de barro avermelhado, o que a proporciona uma identidade bem única.

Um de seus apelidos é, inclusive, La Rossa (a vermelha, em português).

Além disso, os pórticos – palavra chique pra calçadas cobertas – são marca registrada de Bolonha: é praticamente possível caminhar da estação central até a Piazza Maggiore sem se molhar em um dia de chuva.

Artistas de rua tocam música boa em todo lugar e ajudam a alimentar o clima receptivo do destino.

É uma cidade para se ver, degustar e ouvir.

Ver – as escavações arqueológicas embaixo de uma biblioteca

escavações arqueológicas embaixo da sala borsa em bolonha, na Itália

A Sala Borsa abriga hoje a biblioteca pública da cidade, mas o edifício em que está localizada era antigamente, na verdade, a bolsa de valores de Bolonha.

A biblioteca foi inaugurada em 2001 e uma de suas atrações fica embaixo do salão principal: algumas escavações arqueológicas que foram encontradas durante o período de restauração da Sala Borsa.

É possível visitar as escavações de forma gratuita – embora o pessoal que controla a entrada faça uma pressão até desagradável pedindo doações para manter o lugar de pé e bem cuidado.

Ver – A polêmica Fonte de Netuno

Estátua de Netuno na fonte de mesmo nome no centro de Bolonha

A Fonte de Netuno fica na Piazza del Nettuno, coladinha na Sala Borsa e quase encostando na Piazza Maggiore, bem no fervo de Bolonha. A estátua em si não é lá muito diferente das muitas estátuas de qualquer cidade europeia, mas a história em torno dessa obra é curiosa.

Primeiro, existem quatro estátuas de mulheres – jorrando água pelos seios – aos pés de Netuno. Elas representam as nereidas, as filhas do deus marinho Nereu – que representam os quatro grandes rios então conhecidos à época (Nilo, Danúbio, Ganges e Amazonas).

Em segundo lugar, a própria estátua do Netuno possui suas peculiaridades. Reza a lenda que o Papa Pio IV não gostou da ideia que o escultor Giambologna teve de fazer as genitais de Netuno um pouco avantajadas e, diante da censura, o artista resolveu sacanear com a galera mais religiosa, fazendo com que a posição do dedo da estátua parecesse um pênis ereto quando vista de lado.

A última curiosidade é que a marca de carros granfinos Maserati – fundada em Bolonha – tem um tridente em sua logo, objeto carregado por Netuno na estátua da cidade.

Ver – a inesperada mini Veneza vista de uma janela na rua

vista a partir da finestrella para o canal do reno, em Bolonha, na Itália

Até ir a Bolonha, eu pensava que os canais de Veneza eram os únicos do tipo na Itália. Durante a nossa viagem, no entanto, acabei descobrindo que o molho bolonhesa não era a única coisa que fazia da cidade uma referência no país.

Os canais foram desenvolvidos entre os séculos XII e XVI e conectavam a cidade ao rio Po, o que permitiu que navios e mercadorias transitassem com mais facilidade pela região e ajudassem a transformar o local em um forte polo mercantil.

Com o tempo, os canais se tornaram substituíveis e a cidade começou a erguer casas e construir ruas, o que fez com que os que sobraram ficassem em menor evidência.

Hoje, cinco canais ainda existem e o Canal do Reno é o mais curioso de todos, pois pode ser visto de uma pequena janela no meio da rua. A mini Veneza se chama Finestrella e fica na Via Piella.

Vale a pena conferir e ter uma pequena noção do que seria estar em Veneza.

Ver – a extensa e cheia de pontos turísticos Via dell`Indipendenza

turistas e locais passeam pela Indipendenza, uma das principais avenidas de Bolonha

A Indipendenza é uma das principais avenidas de Bolonha e liga a estação central de trem à Fonte de Netuno, passando pela Scalinata del Pincio, em uma linha reta de 1,1 km, mas que leva muito mais tempo a ser percorrida do que os inocentes 14 minutos que o Google Maps sugere.

Isso porque as calçadas dos dois lados da rua são completamente cobertas – os arcos nas laterais lembram um pouco os da cidade de Berna, na Suíça – e cafés, lojas e afins garantem que não só os turistas, mas também os moradores locais encham de vida o trajeto.

Quase no início da Avenida Indipendenza, a Scalinata del Pincio é uma atração por si só. As escadarias do Pincio poderiam muito bem servir de palco para alguma peça de teatro de tão bonita que são.

Outro ponto conhecido no caminho é o teatro Arena del Sole e também a catedral de San Pietro.

Ver – a Piazza Maggiore e a grandiosa e inacabada basílica de San Petronio

vista para a basilica de san petronio, em Bolonha - Itália

A Piazza Maggiore cumpre à risca os requisitos mínimos para carregar o nome de Praça Maior de uma grande cidade da Itália ou da Espanha: fica rodeada de palácios, tem uma igreja imponente em um dos lados, pombos pra lá e pra cá e artistas de rua.

Uma de suas principais atrações é – sem dúvida – a Basílica de San Petronio, mas outras construções clássicas também chamam a atenção, como o Palazzo dei Bianchi e o Palazzo Comunale.

A Basílica até hoje é inacabada – metade da fachada é de mármore e a outra metade é de tijolinho à vista – e ainda carrega uma baita polêmica que já até rendeu ameaça terrorista.

Ver – Passear pelo Quadrilátero

Turistas passeiam pelo quadrilátero, em Bolonha

Coladinha na Piazza Maggiore, o quadrilátero de Bolonha é uma das áreas mais originais da cidade, repleta de becos e ruelas com artesanato, comércio em geral e muitas opções gastronômicas, incluindo o Mercato di Mezzo.

Quatro ruas maiores formam um retângulo que abriga o Quadrilatero: Via Rizzoli, Via Castiglione, Via Farini, and Via dell’Archiginnasio. A dica aqui é ir com tempo e se perder mesmo. Muitas lojas e restaurantes passaram de geração em geração e ainda hoje possuem os letreiros de antigamente, por exemplo.

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Ver – as duas torres de cartão postal

torres de asinelli e garisenda vistas de baixo pra cima

Bolonha até tem outras torres, mas as duas construções exageradamente maiores do que os prédios na vizinhança fazem das torres de Asinelli e Garisenda o principal cartão postal da cidade.

Antigamente, eram mais de 180 e hoje ainda restam 20, mas essas duas formam um dos pontos turísticos mais visitados da cidade.

É possível subir na Torre de Asinelli – a mais alta delas, com 97 metros e meros 498 degraus – e observar a cidade toda.

Uma curiosidade é que a Asinelli é a torre inclinada mais alta da Itália. Porém, a inclinação é praticamente imperceptível, pois está envergada em menos de 2°. Talvez seja por isso que Pisa leve a maior fama mesmo.

Ver e ouvir – Telefone sem fio no Palácio de Podestà

Vista de uma das colunas do Palácio de Podestá, onde se pode fazer telefone sem fio de um lado a outro

O Palácio de Podestá é um complexo arquitetônico que foi construído mais ou menos lá por 1.200 para gerir algumas funções públicas da cidade. Duas ruas cobertas se cruzam no Voltone de Podestá, que é uma parte com o teto abobadado que proporciona uma acústica muito interessante.

Existem quatro cantos no cruzamento dessas duas ruas e, por alguma razão, quando alguém fala algo virado para a parede em um desses cantos, a pessoa no lado oposto escuta esse som amplificado: um efeito parecido com o da brincadeira de telefone sem fio.

Não precisa nem dizer que faz fila pra testar o efeito, né?

Ouvir – os artistas de rua da cidade da música

artistas de rua fazendo uma performance de percussao em bolonha
O som dos artistas de rua de Bolonha você pode conferir nos destaques no instagram do Viagem 0800

Essa dica não inclui nenhuma sugestão prática. Até porque os artistas devem mudar de lugar de vez em quando ou até se apresentarem nas ruas da cidade de forma sazonal. Mas garanta que o seu roteiro não seja dos mais apertados, pois em algum momento da sua viagem você vai se deparar com boa música que vale a pena reduzir o ritmo.

Desde 2006, Bolonha carrega o título de Cidade Criativa da Música (link em inglês), dado pela Unesco.

Além de eventos oficiais que incentivam a ida de músicos pra lá, o que nos chamou a atenção foi a quantidade de músicos nas ruas e a variedade de performances que vimos – o que mais nos chamou a atenção foi uma dupla percussionista que tocou em latas de lixo e fez um som animal.

Comer – Osteria dell’Orsa, Jukebox ou Fuori Porta

Prato de lasanha verde no café jukebox em bolonha

A Osteria dell`Orsa foi uma indicação da recepcionista do nosso hotel. Rumamos pra lá com o objetivo de provar a famosa lasanha verde, mas ao chegar lá, a espera era grande.

O garçom, então, nos sugeriu irmos para o Jukebox Café, que ficava na porta quase vizinha e pertencia aos mesmos donos (que ainda possuem o Fuori Porta) e tinha os mesmos pratos, mas numa oferta limitada.

Sem fila e com uma enorme oferta de cervejas, o Jukebox não decepcionou. Tanto a lasanha verde como qualquer opção de birra alla spina fizeram valer a indicação.

Comer – Ristorante Bolognese

prato de tagliatelle al ragu em bolonha, na Itália

O Ristorante Bolognese fica no subsolo de uma galeria próxima à estação principal e ao NH Bologna De La Gare, o hotel em que nos hospedamos nessa trip.

Lá, comemos o famoso tagliatelle al ragu (sensacional!), além de um bolo de arroz e bolo de chocolate com mascarpone de sobremesa – ainda não sei se o bolo de arroz foi bom ou não, mas o bolo de chocolate é tiro certo.

O ponto alto do lugar – apesar da comida maravilhosa – é o atendimento. O Ristorante Bolognese tem uma pinta meio chique, mas é super em conta.

Comer – Il Piatto Rotto

prato de entrada de crema parmigiana no restaurante piatto rotto em bolonha, na itália

A melhor experiência gastronômica que tivemos lá por causa de duas delícias: a crema parmigiana – que é um mousse de parmesão fora de série – e o Prosciutto di parma com burrata, que me fez querer mudar pra Itália.

Apesar do frio do inverno, tivemos que sentar em uma tenda do lado de fora porque o lugar estava lotado.

Mas isso parece ser sempre o caso, já que a tenda é toda equipada com aquecedores, iluminação e até mesmo um piso de madeira.

A popularidade é mais do que justificada: além dos pratos que falei acima, o gnocchi gorgonzola e o tagliatelle bolonhesa também merecem nota dez.

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Como ir do aeroporto pro centro de Bolonha

Dica rapidinha e sempre válida pra quem quiser economizar no trajeto aeroporto – centro.

O Aerobus custa 6 euros, parece um busão de linha e em 20 minutos chega no centro – descemos na estação Mille. Fica bem lotado dependendo da hora e muita gente acaba indo em pé, mas como a frequência dos ônibus é muito grande – um sai e outro já chega – sempre dá pra esperar o próximo e ir sentadinho.

E aí, já pensou em conhecer Bolonha? Qual das atrações mais te chamou a atenção?

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